Ligação

- Alô?
- Alô, eu poderia falar com a Marcella?
- Sou eu. Quem fala?
- Aqui é o Senhor X, pai do Y.
- Eu não conheço ninguém com esses nomes, do que se trata?
- Eu gostaria de falar com você.
(Coração acelera. Medo.)
- Diga. Com quem você quer falar? (apreensão)
- Com a Marcella.
Desligo o telefone. Engano. Só pode ser. Tem que ser.

Recebi esse telefonema hoje. Menti. Pelo menos o segundo nome eu sabia de quem se tratava. Meu coração e principalmente minha memória reconheceram de imediato, mas preferi a mentira. Preferi acreditar que era impossível. Fiquei com medo. Tive a confirmação pela minha mãe. Supostamente são familiares mortos. Não, não os fantasmas literalmente, mas metaforicamente. O segundo nome seria do dono do espermatozóide que fecundou o óvulo da minha mãe (para pessoas comuns = pai) e o primeiro, a pessoa que ligou, o pai desse indivíduo. Minha mãe não fez fertilização in vitro ou algo parecido, acontece que eu não conheci esse lado familiar. Pelo menos não que eu me lembre. Perdi o contato muito nova e simplesmente não tenho a mínima vontade de retomá-lo.
Esses fantasmas estão rondando a minha vida, e só hoje que eu percebi que eles estão por perto. Eu fiquei com medo. Muito medo para ser bem honesta.
Não conheço e nem faço questão de conhecê-los. Sobrevivi muito bem sem eles e por sinal arrumei um substituto muito além do esperado. O meu pai verdadeiro. O que me criou, me deu comida quando eu tinha fome, remédio quando eu estava doente, presentes nas datas importantes e nos dias comuns também. Aquele que sentava comigo para estudar matemática, que puxava a minha orelha quando eu estava errada ou brincava de esconde-esconde no "projeto de casa" (que hoje nós moramos). Que contava piada feito criança e me chamava de carrapato. Que me ensinou tudo o que sabia sobre eletricidade e sobre a vida. Esse sim é pai, o MEU pai.
Aquele? Aquele apenas teve a sorte de ter o esperma premiado. Só isso. Essa é a importância que eu dou à ele.
Agora, se eu dou tanta (sarcasmo) importância para esse ser, por que fiquei com tanto medo dessa maldita ligação? Porque senti como se a minha bolha tivesse sido rompida. Minha bolha perfeita, sem vazamentos, que só tinham conhecimento quem eu deixava e amava profundamente.
Invasão. Foi isso que me afetou.
Conclusão: Tenho que construir uma bolha mais forte.

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